A Qualidade de Vida no Trabalho e a Responsabilida

A responsabilidade social é um dos temas mais freqüentemente abordados no meio empresarial. As organizações buscam inclui-la em sua agenda por vários motivos, como instrumento de marketing, de melhoria de sua imagem institucional, de busca de espaço na mídia ou por encará-la como um bem em si.No entanto, como destaca a professora Rosa Maria Fisher (FEA-USP) ainda hoje a responsabilidade social constitui-se num conceito em busca de definição.

O cenário fica mais complexo quando incluímos a questão da responsabilidade social empresarial. De acordo com alguns autores, este conceito foi inicialmente utilizado no Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável em 1998, estabelecendo que "se trata de comprometimento permanente dos empresários de adotar um comportamento ético e contribuir para o desenvolvimento econômico, melhorando simultaneamente, a qualidade de vida de seus empregados e de suas famílias, da comunidade local e da sociedade como um todo".

Como podemos observar, trata-se de um conceito ainda atual, que vem sendo reforçado em outras propostas de definição, como a do Instituto ETHOS, do SEBRAE e da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Ressaltam a importância da ética e da transparência nas relações com todos os seus públicos, da preservação do meio ambiente, do respeito à diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais.

A responsabilidade social hoje é encarada como fator de competitividade e as empresas interessadas podem encontrar muitos instrumentos para capacitação e orientação sobre as melhores práticas.Como exemplo, podemos citar as publicações SEBRAE/ETHOS, disponíveis inclusive na internet. As ações em responsabilidade social podem ser planejadas através do "Guia de Responsabilidade Social para as MPE - Passo a passo" e acompanhadas pela "Ferramenta de auto-diagnóstico e Planejamento em Responsabilidade Social Empresarial específica para MPE" e pela Ferramenta de Auto-Avaliação e Planejamento". Os benefícios destas ações são percebidos através da melhoria da gestão, por um maior comprometimento dos funcionários, por uma melhor relação com clientes, fornecedores e com a comunidade.


Recente pesquisa realizada com 543 indústrias paulistas mostrou que 78% delas realizam ações sociais não obrigatórias por lei ou acordo coletivo em beneficio de seus empregados. Mostra ainda que 76% realizaram, no ultimo ano, algum tipo de ação social e/ou doação em beneficio da comunidade. O investimento social no Estado de São Paulo, projetado para o conjunto de indústrias com mais de 30 empregados alcançou R$ 737 milhões.

No entanto, observa-se que muitas empresas acabam buscando um reconhecimento ou um selo de responsabilidade social unicamente pela questão da competitividade, ou seja, para equiparação com os concorrentes que realizam ações sociais. Os programas são realizados sem um planejamento adequado, sem a participação dos empregados, dos clientes, dos fornecedores e, geralmente, não se aguarda o período normal de evolução e crescimento de uma ação de responsabilidade social. Estes programas acabam redundando em meras ações de filantropia, com poucos resultados efetivos para a organização e para a comunidade.

Acreditamos que a responsabilidade social está intimamente ligada a questão da cidadania empresarial em que os programas devem focalizar inicialmente seus empregados, familiares e a comunidade do entorno da corporação. Como admitir ações de filantropia quando há, na empresa, funcionários trabalhando de maneira ilegal e insalubre, com baixa escolaridade, com problemas de saúde e de habitação.

A responsabilidade social empresarial começa com a abordagem da questão da diversidade (há discriminação na seleção, nos critérios de promoção?), da educação (há estimulo para se melhorar o nível de escolaridade dos empregados?), da saúde (busca-se evitar acidentes no trabalho, oferece-se um plano de saúde, realizam-se ações preventivas?), da relação ética e legal com todos os trabalhadores, inclusive os terceirizados.

Infelizmente, sabemos que mais da metade dos trabalhadores no Brasil não possuem carteira assinada, excluindo-os de grande número de benefícios sociais. Dados da ABMT mostram que mais de 90% das empresas não possuem SESMTs (Serviços de Segurança e Medicina do Trabalho), contribuindo para as graves estatísticas nacionais de acidentes no trabalho e onerando a já combalida previdência social. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, as doenças crônicas (do coração, diabete, derrames cerebrais e câncer) são responsáveis por 72% de todas as mortes, gerando uma perda de três bilhões de dólares ao Brasil, em 2005, por morte prematura. A OMS conclui que 80% das mortes prematuras por doença cardíaca, derrame cerebral e diabete e 40% das mortes por câncer podem ser prevenidas por mudança no estilo de vida. Ressalta que 2% de redução na prevalência de doenças crônicas vai resultar em ganho de dois bilhões de dólares para o país.O cenário nacional não é bom, pois de acordo com estudo da Sociedade Brasileira de Cardiologia, 83% dos brasileiros são sedentários, 25% fumam e 14% apresentaram níveis de triglicérides acima do normal.

Este cenário é até mais complicado nas pequenas e médias empresas. Uma pesquisa realizada por uma instituição americana chamada "Small Business Initiative" constatou que 64% das empresas pesquisadas possuíam empregados doentes, 87% possuíam pelo menos um fumante e 73% possuíam pelo menos um trabalhador com ansiedade e depressão. Observaram que 90% dos empresários acreditam que o stress afeta a produtividade do empregado e metade relatam que a incapacidade de resolver problemas pessoais pode comprometer a produtividade ou aumentar o risco de acidentes no trabalho.

Deste modo, constatamos que há muito por fazer no âmbito da responsabilidade social empresarial, começando com os trabalhadores e familiares, buscando melhores níveis de saúde, de escolaridade, de segurança, de bem-estar, enfim, de qualidade de vida.


Recentemente, testemunhamos uma promissora experiência utilizando-se os modernos conceitos e práticas em responsabilidade social empresarial. Trata-se do programa SER LEGAL, coordenado pelo Comitê de Responsabilidade Social (CORES) da FIESP. O Programa acredita que "adotando uma estratégia de desenvolvimento, crescimento e qualidade de vida para os seus colaboradores e familiares, o industrial estará investindo no ser humano, que responderá com motivação e criatividade, resultando em aumento de produtividade e competitividade". O Programa Ser Legal disponibiliza as ferramentas oferecidas pelo SESI e SENAI e por um grande número de parceiros, como Instituto ETHOS, SEBRAE, Canal Futura, Instituto Akatu, Bolsa de Valores Sociais, Associação Brasileira do Câncer. As alternativas são oferecidas em workshops a grupos de empresários que podem, de acordo com as suas necessidades e expectativas, escolher as melhores ferramentas dentre muitas oportunidades, de baixo custo, disponíveis na comunidade. De acordo com a coordenadora do Programa, Eliane Belfort, "é possível implantar políticas de responsabilidade social empresarial, sem onerar o orçamento, identificando ferramentas que podem melhorar a produtividade, a qualidade dos produtos e contribuir para o crescimento do país e da sociedade brasileira".


Acreditamos que o crescimento da moderna abordagem em responsabilidade social empresarial constitui-se em promissora área de atuação dos profissionais de promoção de saúde e qualidade de vida que se capacitarem para coordenação e gerenciamento de programas empresariais que se voltem para as diferentes facetas envolvidas com a questão, como prevenção de doenças, de acidentes no trabalho, educação corporativa, diversidade, transição para a aposentadoria, cultura e lazer, bem-estar e ações sociais.

Finalmente, concluímos lembrando que os profissionais que atuam com responsabilidade social e qualidade de vida devem, além dos conhecimentos intelectuais das modernas ferramentas de gestão, ter o que Dalai Lama chama de "valores humanos essenciais", ou seja, ser pessoas boas, delicadas, que se relacionam com as outras com cordialidade, afeição, honestidade e sinceridade.


ALBERTO OGATA é médico com mestrado em Economia da Saúde pela USP, Diretor da Subsecretaria de Assistência Médico Social Tribunal Regional Federal da 3ª Região e Vice Presidente da ABQV.


Data de Publicação: 10/09/2014