Mal necessário

Por Luciano Nakabashi

O ajuste recessivo que está em curso no país acaba por trazer efeitos adversos para a economia brasileira no curto prazo e, talvez, no médio prazo. Ela vem apresentando dinamismo muito fraco pelo menos desde 2012, mesmo com os estímulos fiscais e monetários que a equipe econômica anterior do governo federal vinha proporcionando.

A retirada desses estímulos torna o desempenho de nossa economia ainda pior, o que é evidente na análise de vários indicadores como, por exemplo, o saldo negativo de contratações formais nos quatro primeiros meses de 2015 (menos 162.735 postos de trabalho), de acordo com dados do Caged/MTE.

Nos primeiros quadrimestres de 2014, 2013, 2012, 2011 e 2010 os saldos foram positivos em 408.919, 461.709, 598.215, 797.790 e 962.327, respectivamente. Adicionalmente, de acordo com os dados da Pnad/IBGE, ocorreu uma elevação da taxa de desemprego entre os primeiros trimestres de 2014 e 2015, passando de 7,2% para 7,9%, respectivamente, com tendência de maior elevação nos próximos trimestres.

Os índices de confiança dos setores da construção, da indústria e do comércio, além do consumidor – todos medidos pelo Ibre/FGV–, experimentam uma queda quase constante desde, pelo menos, meados de 2012, em todos os casos. Considerando o mês de maio de 2015, o índice de confiança do consumidor se encontra abaixo do pior momento da crise financeira internacional (2008/2009), o do setor industrial atingiu o menor valor da série, que se iniciou em maio de 2008, acontecendo o mesmo com o índice do setor de construção – série iniciada em julho de 2010. O índice do comércio apresenta comportamento muito semelhante.

Por outro lado, o grande esforço que está sendo realizado tem como objetivo mudar uma trajetória que nos levaria, sem sombra de dúvidas, a pioras nos fundamentos da economia em tal magnitude que poderia causar uma crise de confiança que levaria a um ajuste muito mais severo e duradouro da economia.

Desse modo, assim como o desemprego e a retração salarial, o ajuste é muito mais um reflexo dos erros de política econômica cometidos repetidamente em anos anteriores. O que eleva ainda mais os custos das atuais medidas econômicas é a incerteza gerada pela falta de apoio de parte da base governista e, em alguns momentos, até da nossa presidente, além da fragilidade política do Poder Executivo.

O ajuste necessário é duro, gera custos sociais muito elevados ao aumentar o desemprego e reduzir os níveis salariais, mas a alternativa seria ainda mais custosa e o atual ministro da Fazenda tem clara convicção de que um apoio incondicional da base aliada e da própria presidente são peças chaves para atenuar os seus efeitos.

O governo petista é, em grande medida, responsável pela delicada situação econômica que enfrentamos e deveria, para o bem da sociedade, assumir 100% os seus custos e realizar as medidas que são necessárias sem fraquejar, enquanto ainda é tempo.


*Luciano Nakabashi é doutor em economia e professor do Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada da FEA-RP/USP.

Data de Publicação: 12/06/2015